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sábado, 30 de novembro de 2013

Concordamos em Discordar

Aqui há dias, numa pequena tertúlia em minha casa, depois de alguns copos de vinho, dois grandes homens a quem chamo de amigos, discutiam: “De facto este Governo é tudo menos social- democrata. Este Governo é liberal!” dizia um, enquanto o outro, - respondendo de imediato – “Liberal? Liberal? Mas o que sabes tu de liberalismo? Este governo é socialista! Deixou de haver direita em Portugal.”. Não participei na discussão, não de imediato. Deixei-os discutir e proferir as suas radicais e opostas visões. Dou por mim sentado a ouvir a discussão. Era um mero expectador, a dar razão a um qualquer autor que li que dizia que a discussão pública caracteriza-se mais frequentemente pela emoção do que pela razão (creio que é Friedman, mas não me recordo com precisão.). A discussão prolonga-se, fala-se de Reagan, Thatcher, do New Deal, passa-se subitamente para a Reforma do Estado, para o guião da mesma e para as ideologias e partidos políticos. Mudo de opinião. Não estava perante uma discussão de emoções mas sim perante um debate de convicções. Cada um deles, munido da sua e pronto para contra argumentar. Valia a pena. Entrei na discussão. O “homem do partido” estava agora presente contra os independentes de voz forte e decidida. (Deixo os partidos fora da contenda, para quê forçar se os próprios não gostam do debate. É curioso a quantidade de vezes que temos as mesmas ideias e os partidos tornam-nas diferentes ao dividirem-nos. Dividem-nos para subsistirem. São fracos, tendo por isso que dividir para conquistar. São estrategas como Júlio César foi. Mas - hoje - infelizmente não são nada mais que isso.). Divergimos nas posições ou talvez só na intensidade com que as defendemos. As ideologias não são as dos programas partidários, essas estão gastas e desajustadas. Discutimos e percebemos que convergimos em determinados assuntos. Preferimos divergir, testar posições, mas acabamos a concordar com uma Reforma profunda, uma que ninguém fala. Concordamos com a utopia mas mais que isso é impossível. Somos escravos da nossa opinião e contra isso não podemos lutar. Terminamos a discussão e concordamos em discordar em quase tudo, excepto na qualidade do vinho: era de facto mau!

sábado, 9 de novembro de 2013

A Igreja nos dias de hoje

Deixem-me começar por afirmar que não sou ateu, mas também não sou católico nem me considero cristão, apesar de ter sido batizado, ainda que numa idade anterior à que me permite escolher a roupa que visto. Na verdade sinto um pouco de indiferença quanto à Religião, apesar de não admitir que sou ateu porque sinto que quero acreditar em algo, mas não sei bem no quê. Enfim, tudo isto para dizer que sou um crente em construção, tanto quanto ao objeto da crença como quanto à fé na mesma.

Deixando-me de floreados e indo ao que interessa, a Igreja nos últimos tempos têm agido de uma forma que reporto de insólita, atentando contra o conservadorismo clássico que lhe reconhecia. Na verdade, é com agrado que registo a abertura à discussão pública de temas pouco consensuais entre a comunidade católica, através do inquérito enviado pelo Vaticano às conferências episcopais espalhadas pelo mundo. É com igual contentamento que tomei conhecimento da expulsão do bispo de Limburg, conhecido por levar um estilo de vida desconforme com os ensinamentos religiosos. A meu ver, todas estas novidades fazem parte de algo maior, refiro-me, claro, à pretensão de reverter a situação de indiferença com que é olhada a Religião nos dias de hoje.

É inegável que o papel da Igreja tem mudado ao longo dos  tempos e isso está bem presente na encíclica sollicitudo rei socialis de João Paulo II. Contudo, o problema hoje não é a Igreja aumentar a sua presença neste ou naquele domínio do quotidiano, o problema é a Igreja não estar sequer presente e, no caso de estar, a sua presença não ser notada.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Uma crise de gerações?

Com a crise internacional de 2008 chegou a crise das dívidas soberanas que se alastrou por toda a Europa. Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Chipre, foram as primeiras peças do dominó a cair. No meio das dificuldades financeiras das diversas economias Europeias e da consequente falta de credibilidade geradora das dificuldades de acesso ao crédito, chegaram os diversos programas de ajuda externa. Conditio sine qua non destes programas, eram as políticas rígidas de contenção de custos, de redução de despesa, de cortes na Administração e muitas medidas de aquisição de receita como são exemplo as nossas conhecidas privatizações. A esta fase da política Portuguesa, a que uns chamam de “Austeridade” e outros apelidam de “Inevitabilidade”, estão associadas grandes mudanças na estrutura socioeconómica da população portuguesa. Apesar de mudanças negativas, como o aumento da taxa de desemprego até aos 17,4% (e até aos 40% no desemprego jovem), a crise trouxe também mudanças positivas, como p.e o aumento da taxa de poupança das famílias que subiu dos cerca de 6% em 2008 para os 10.6% em 2012.
Desde 2011 e com o agravar da crise, os problemas sociais e dificuldades económicas têm vindo a aumentar. As gerações dos tempos mais recentes não tiveram as mesmas oportunidades que as gerações anteriores. A oportunidade de estudar, de obter emprego, de constituir família e de deter habitação não são as mesmas que existiam há 20 anos. Essa diferença, ou melhor, a construção dessa diferença, foi causada por diversos fatores, como : i) políticas públicas deficitárias e despesistas; ii) uma classe política maioritariamente incompetente; iii) e um desinteresse generalizado da população na participação cívica. Todos estes fatores - e outros poderiam aqui ser apontados – constituíram a falta de solidariedade intergeracional, que consumou o Portugal dos dias de hoje.
Posto isto, haveriam dois caminhos possíveis para esta geração “pós-crise” seguir. Um primeiro, seria o de enveredar pela discordância com as anteriores gerações que colocaram o país no estado em que hoje este se encontra. Um segundo, seria o de pôr de lado a tristeza e a magoa e seguir em frente fazendo parte da solução para sair desta crise, evitando uma querela entre gerações. Parece-me que este último, para além de fazer mais sentido, é o que esta a ser seguido pelos jovens de hoje. São manifestações desse caminho, a força e empenho crescentes com que os jovens encaram o ensino superior, a constante criação de associações compostas por jovens com objetivos sociais e mesmo a participação dos mais novos na cidadania e na política ativa. Cabe reter que apesar deste caminho de revitalização e de mudança, os jovens não se esquecerão do Portugal que herdaram e, recordado uma frase de Hollande, esta "geração do pós-crise vai ajustar contas com os governantes de hoje".

domingo, 28 de julho de 2013

Juventude, levantai-vos!

Ao longo da minha vida, tenho sempre orientado a minha atuação cívica e associativa para os jovens. A razão de ser desta minha orientação, não se prende com o simples facto de eu, com os meus vinte anos, me enquadrar ainda nesta quadra da vida que denominamos de juventude. Esta orientação prende-se com uma razão maior. A razão, é a simples crença que os jovens portugueses têm em si, um potencial tremendo para grandes feitos. Eu acredito que nós jovens podemos ser a solução em vez de parte do problema, podemos representar a ação em vez da inércia e podemos ser a criatividade e inovação neste Portugal em manutenção e subsistência.

Eu acredito, que é não só a irreverencia mas também a vontade de trabalhar por causas nobres e transversais à comunidade, que pautam os jovens de hoje. Bem sei que tal facto pode não estar à vista de todos nós e que é uma luta constante fazer os jovens aperceberem-se deste seu imenso potencial, contudo, é uma luta das quais não nos podemos demitir. Enquanto a razão desta insistente e persistente luta de consciencializar os jovens para a sua participação na comunidade não se desvanecer, a luta jamais acabará e nós jamais desistiremos. O Papa Francisco, no seu discurso de dia 25 de Julho, orientado para a juventude do Rio de Janeiro reforça esta ideia quando disse:  

Também para vocês e para todas as pessoas
repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar.”

Os jovens de hoje, na sua generalidade, alienaram-se da crise e dificuldades do país. Apesar de esporádicas manifestações e saídas à rua, os jovens recusam-se a sair da sua área de conforto e a lutar por um Portugal, mais justo, coeso e solidário. Os jovens, estão desinteressados, demitiram-se da participação cívica e limitam-se a viver segundo os seus antigos hobbies, muitas vezes provenientes de importações culturais.

Os jovens, apesar desta imagem de laxismo e desinteresse, podem ser e fazer muito mais. Hoje a intervenção cívica não passa só pelas juventudes partidárias, o voluntariado, o associativismo, são hoje realidades em franco desenvolvimento quem têm e devem ser mais exploradas. É inegável que Portugal precisa de mudar, é inegável que todos queremos um novo rumo com mais opções e melhores qualidades de vida. Se assim é, todos nós temos de participar nesta mudança. Todos nós temos de prestar o nosso contributo. E não pensemos que por ele ser pequeno não interessa ou é escusado. Pois como dizia Edmund Burke:

“Ninguém cometeu maior erro do que aquele que nada fez só porque podia fazer muito pouco”.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O (des)governo em tempos de crise

Há quem pense que um Governo em tempos de crise e recessão económica deve passar para o exterior uma mensagem de coesão, união e credibilidade. Há quem pense que em nome do conceito agostiniano de bem comum, os dissensos internos de um executivo, devem ser preteridos. Há quem pense inclusive, que um Governo representa um povo e que as suas atitudes influenciam país. A realidade demonstrou-nos algo diverso. O empirismo de Hume, diz-nos que o conhecimento se adquire com a experiência. Assim sendo, ao contrário das pressuposições iniciais, parece que o Governo tem antes como objetivo fomentar a instabilidade social, pugnar pelo descrédito dos mercados e gerar mais e mais dificuldades financeiras ao país.
Como se disse pelas redes sociais, “Portas bateu com a porta”, caberá agora perguntar se a deixou encostada ou se a fechou mesmo. Ao que parece, ficou decidido em reunião de Partido que os Ministros do CDS, Mota Soares e Assunção Cristas, depois de terem “deixado o seu cargo à disposição do partido”, se mantêm no executivo, pelo que Portas terá efetivamente fechado à porta. A saída do Ministro dos Negócios Estrageiros, foi tudo menos inconsequente. Os juros da dívida pública a 10 anos alcançaram os 8%, a bolsa Portuguesa caiu e arrastou as bolas europeias. A credibilidade do Governo foi afetada e a probabilidade de um novo regate surgiu. Há quem diga que este é um mero efeito momentâneo. Para bem te todos nós, assim o esperamos. Portas saiu do Governo devido à escolha - imprudente - da nova ministra das Finanças, afirmando que permanecer no executivo “não é politicamente sustentável, nem é pessoalmente exigível.”. Sabemos que as relações entre PSD e CDS nunca foram as melhores. Contudo, existiu manifestamente uma falta de comunicação e de tolerância no seio do Governo, que não deve ser tolerável pelos detentores da soberania. Neste momento, várias são as vozes que soam, umas pedem a dissolução da Assembleia, outras tão prestáveis apresentam já uma proposta concreta de novas legislativas para o dia 29 de Setembro, há até aquelas que se dispõem a ser a alternativa “forte, competente, e capaz de mobilizar os portugueses”.
Efetivamente, o sentido de Estado - conceito agora muito em voga – não existiu. A falta de senso por parte do executivo é preocupante e coloca todos os Portugueses numa situação cítica. Por um lado, Passos devia ter ouvido, por outro, Portas devia ter ficado, mas como este último referiu quando estava afastado da vida política: “Os quadros dos partidos, são normalmente, muito, muito, medíocres.”. De facto, foi isso que ele demonstrou com a sua saída do Governo: pura e simples mediocridade e egoísmo político. Apesar de muitas vozes insurgentes pretenderem a queda do Governo, este não pode cair à semelhança da Grécia. A oitava avaliação da troika está para breve e dela depende a nova tranche financeira do pacote dos 68 milhões de euros. Apesar de todas as ideologias pessoais, quer queiramos, quer não: A sustentabilidade do país, está neste momento dependente da sustentabilidade e credibilidade do Governo.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

O 10 de Junho e a Epopeia Portuguesa…

Foi no ano de 1580 neste preciso - e hoje, precioso - dia, que falecera a que considero maior figura da literatura portuguesa. Luís Váz de Camões, escreveu a sua opera magna: Os Lusíadas, imortalizando assim, a glória - muitas vezes esquecida - do Povo Português. Durante a viagem para a Índia e ao longo das impressionantes e admiradas oitavas decassilábicas, são descritos episódios de exortação do povo português. Da coragem de Viriato à determinação de Afonso Henriques, do amor impossível de D. Inês e D. Pedro à Batalha de Aljubarrota, muitos são os temas tratados nesta obra que marcaria - e marcará - todas as gerações vindouras.

Dia de Portugal é Dia de Camões. É Dia de Recordar os nossos feitos, Dia de reviver o passado e encontrar força para vivermos o presente. É sem dúvida um Dia de grande importância histórica para nós Portugueses e deve ser para todos nós, um dia de introspeção e de construção das bases que queremos implementar neste futuro próximo - e ao mesmo tempo, longínquo - em Portugal. O peso da História pesa sobre nós. É um verdadeiro cargo que temos de honrar em vez de desconsiderar como fazemos muitas vezes, que são sem dúvida, demasiadas. É um peso do qual nos devemos orgulhar e pelo qual devemos trabalhar. Uma Epopeia portuguesa do século XXI, narraria uma história bem diferente do povo Português de há meio século atrás. Narraria uma história da qual muitos portugueses não teriam orgulho, seria uma história de tentativa e de desalento, uma história de tristeza mas também de resiliência que não pode desaparecer. Seria uma história triste é certo, mas seria uma história por acabar e todos sabemos o que é possível numa história que tem o seu fim ainda por escrever.
As circunstâncias em Portugal não são as melhores, é certo. A crise financeira teima em ficar enquanto as previsões dos indicadores financeiros igualmente persistem em falhar. O Orçamento Retificativo, está para ser aprovado, provocado pela imprevista contração da economia portuguesa que em vez de 1% do PIB, será na ordem dos 2.3% do PIB (2.7%, nas estatísticas da OCDE). Justificado, pela diminuição do consumo privado e do investimento, esta contração poderá ser ainda maior, consoante a deterioração do Mercado de Trabalho e a redução do rendimento disponível das Famílias. De facto, o aumento da Taxa de desemprego dos 16.4 para 18.2; a diminuição das exportações que dependem da procura de países como a Espanha, Alemanha, França, Itália e Reino Unido (também condicionados pela contração económica generalizada dos países da União); a própria restrição do acesso ao financiamento de empresas não financeiras causado pela deterioração das expetativas dos mercados financeiros, são problemas de fundo que devem estar “em cima da mesa”, porque urgem em serem resolvidos. Em Portugal parece existir - a meu ver - um diagnóstico correto do problema, contudo, uma medicação errada. Esta medicação, será para uns - como para mim já foram - as “Reformas do Estado”. É inegável que a Saúde, o Ensino, a Segurança Social, as PPP’s, a Agricultura, a Pesca, são áreas que necessitam de mudanças urgentes. Contudo, há uma questão que deve ser colocada a priori, que é: a quem cabe fazer estas Reformas? A questão poderia suscitar discussão, mas não. É efetivamente aos Partidos Políticos que cabe a resolução destes problemas. Pelo que se deve perguntar: como podem os Partidos afirmar querer “Reformar o Estado”, se não se conseguem reformar a eles próprios?

A questão fica no ar, no intuito, de neste dia de introspeção, se partir de uma base comum, única e concreta que - a meu ver - seria como que o ímpeto para a resolução de muitos dos nossos problemas atuais, que tornaram Portugal no pais que é hoje, conformado com a situação e vendo uma nova Epopeia como uma utopia, ao invés de algo possível e concretizável. Como dissera Camões: “Jamais haverá ano novo se continuar[mos] a copiar os erros dos anos velhos”.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Para onde vais Europa?

Sessenta e três anos depois do Plano Shuman, o que é a Europa? Muito mudou desde a declaração do Ministro dos Negócios Estrangeiros francês em meados do século XX, que visava a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Hoje, ao olharmos para esta declaração, pensamos no quão erudita e perspicaz foi, por ter conseguido conciliar os ânimos da época intolerantes a grandes mudanças com a necessidade de um novo rumo para a Europa. Repare-se que num contexto de pós-guerra, grandes e determinantes transformações não seriam fáceis de implementar, pelo que, se afirmou o chamado método funcional afirmando-se que a “Europa não se [faria] de uma só vez, nem numa construção de conjunto”.

De facto, olhamos para o passado e as mesmas palavras que há mais de sessenta anos faziam sentido, hoje fazem ainda mais. Continua a ser necessária uma “solidariedade de facto” e sabemos que é indispensável uma “fusão de interesses” para que a União funcione. Pergunto-me o que daqui a 60 anos pensaremos sobre estes nossos conturbados tempos? Acharemos surreal a ideia de construir uma União Económica sem uma União Política? É muito provável que o venhamos a fazer. Mas será que hoje em dia os Estados Europeus estão preparados para alienar a sua soberania na construção de uma Federação? Outrora havia elementos que pesavam muito na balança do federalismo, hoje, esses elementos como que se dissiparam. O primeiro, seria claramente o cristianismo, herança da Respublica Christiana, coisa que o homem comum deixou de valorizar. O segundo, seria o elemento geográfico, contudo, mesmo este deixará de fazer sentido se  a Turquia aderir à União Europeia, como alguns pretendem. Será que existem elementos a favor sequer de um federalismo? O elemento cultural indica-nos que os povos são individualistas por natureza, com tradições muito rígidas e próprias que se transformam num obstáculo para a integração política. O elemento histórico e os exemplos dos Estados Unidos da América e da Alemanha, levam-nos a pensar em processos revolucionários e não em construções políticas seculares. Mesmo que existisse uma “solidariedade de facto” entre os países da União e uma “vontade significativa de integração”, sou forçado a afirmar que o Estados - leia-se os seus cidadãos - não estão ainda, na sua maioria, preparados para a alienação total de um valor em que, alguns com mais de vinte séculos de história, basearam a sua estrutura política: a soberania.
Apesar da minha convicção realista e visão bastantes eurocética da realidade aqui tratada, não é despiciendo recordar a título de finalização um excerto, quase que poético, de De Gaulle, na Conferência de 15 de Maio de 1962: ”Em assuntos de grande importância é muitas vezes agradável sonharmos com a lâmpada mágica de Aladino, a qual basta friccionar para conferir substância ao irreal. Mas não existe uma fórmula mágica que nos permita levar a cabo uma tarefa tão difícil como a construção da Europa Unida. Vamos construir as fundações sobre a realidade; quando tivermos feito isso, então será altura de nos deixarmos seduzir pelas Mil e Uma Noites”. Concluindo, para uns fica o sonho, para outros a realidade, de todo o modo, é algo em que vale a pena pensar.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sr. Engenheiro, não volte por favor!


O exímio mestre dos mestres, governante dos governantes está de volta! Diz-se que foi para Paris estudar filosofia, como tal, numa espécie de exortação à comodidade, peço-lhe que se deixe por lá ficar. Se já leu os clássicos, releia-os, certamente que uma segunda e terceira leitura demonstram novos conhecimentos inalcançáveis numa primeira. Por falar em primeiras leituras, talvez deva ler os relatórios que demonstram que no período correspondente entre 2007 e 2009, o défice aumentou respetivamente de 2,6% para 9.4%. Entre outras leituras interessantes, encontram-se relatórios do Tribunal de Contas sobre as Parcerias Público Privadas e, se quisermos, como consequência, leia também o OE para 2013 – pois há uma razão bem conhecida para o país estar como está! Enfim, já dizia o “Sr. Professor” Marcelo Rebelo de Sousa, no seu habitual comentário político, qualquer coisa como: “Eu não diria que ele [Sócrates] está morto politicamente. Em política, quando dizem que alguém está morto, aparece sempre lá uma mãozinha a abanar.”
Posto isto, e tendo em conta todas as petições a decorrer tanto a favor, como contra o seu comentário na RTP e acrescentado as acérrimas críticas e já muitas manchetes de jornal, só há uma coisa a dizer: por favor Sr. Engenheiro, não volte, que nós ainda temos fé no regresso de D. Sebastião.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Mas afinal onde está a limitação de mandatos?

Todos nós já ouvimos falar da tão debatida temática, sobre a limitação de mandatos nas Autarquias Locais, estabelecida pela lei 46/2005. Ao que parece, a lei levanta algumas dúvidas! Uns suportam a tese de que a limitação só diz respeito à câmara em que foram exercidos os mandatos, outros, a de que a limitação diz respeito ao cargo, portanto, independentemente da transição de câmara para câmara - situação que o ilustre ex-presidente da Republica Ramalho Eanes denomina de paraquedismo político.  

Todo o fervoroso debate surgiu porque na lei em questão, inicialmente, constavam as expressões "Presidente da Câmara Municipal" e "Presidente da Junta de Freguesia", enquanto na versão publicada em Diário da República, houve a substituição da preposição “ de” contraída com o artigo definido “a” (ou seja: “da”) pela preposição “de”, operando assim a transformação para "Presidente de Câmara" e "Presidente de Junta". Pelo que consegui apurar, acontece que a alteração linguística foi feita pela Casa da Moeda, a questão que cabe agora averiguar (e é disto que se têm feito manchetes de jornal) é se é aplicável o “da” ou o “de”. De facto, este pseudoproblema não passa de uma questão jurídica, neste caso, meramente interpretativa. Em minha opinião, prevalece obviamente o elemento teleológico (aliás o mais importante como nos diz Philipp von Heck), pelo que, a lei de facto limita os mandados, mas da mesma autarquia. Não se pense que com isto, só quero sustentar a viabilidade da candidatura de autarcas como Fernando Seara e Luís Filipe Menezes, a concorrer por Lisboa e Porto, respetivamente. A questão é meramente jurídica e a ratio legis do preceito vai no sentido de limitar mandatos na mesma Autarquia. De facto, não acho que aqui haja qualquer dúvida, pelo que não noto qualquer necessidade de uma “clarificação do diploma”, como sustenta o exímio Professor Jorge Miranda. 

 Com respeito às distintas notícias que têm sido escritas sobre a temática, acho que a verdadeira questão se coloca no plano do iure constituendo (direito a constituir, para os menos familiarizados com a expressão). Penso que o que deveria estar em causa é: se de facto deve haver limitação de mandatos dos Autarcas eleitos com legitimidade democrática direta? E se a resposta a esta pergunta for “sim”, levantar a questão se não deverão também os mandatos dos deputados ser limitados? Existem vários argumentos favor da limitação de mandatos, como por exemplo, os interesses gerados pela mesma pessoa e o clientelismo associado a essa sua estadia no poder. Mas por outro lado, levanta-se a questão: se efetivamente a generalidade da população quer continuar a eleger aquela pessoa, porque não o poderá fazer? Sabemos que, como nos diz John Acton, “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”, contudo, a solução às questões aqui levantadas esta longe de ser pacífica. A meu ver, há demasiadas variáveis presentes no problema para aqui serem discutidas, todavia, qualquer solução terá sempre que ter em conta o princípio da renovação e o problema dos “interesses” que o poder atrai. De todo o modo, havendo limitação, esta deverá ser para toda a classe politica e não só para algumas das suas categorias, pois a ideia da limitação dos “pequenos” e ilimitação dos “grandes” já muito desgastou a base da Democracia Portuguesa.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O mito da consciência social

Poderia principiar este breve escrito, como muitos outros fazem, pelo surgir da enorme crise económico-financeira em que estamos mergulhados. Tal início seria terrível, pois todos nós estamos fartos das discrepâncias orçamentais, do défice excessivo, das Parcerias Publico Privadas e de outros inúmeros casos e factos que nos repugnam, como a questão do BPN ou do BPP tão bem ilustra. De facto, tudo isto é uma história da carochinha, que me cansa e me tem consumido muito tempo, pelo que estas breves linhas se iniciam com a questão da negação da sociedade que impele sobre o homem em geral e que está a ganhar uma força constante e, por isso, preocupante – chamemos-lhe crise de valores, crise de mentalidades ou, indo ao extremo, amoralidade social.

Societas, do latim significa sociedade, um conjunto de pessoas que partilha preocupações, objetivos, projetos e que trabalha em conjunto para os realizar. Repare-se, que esta é a essência do contrato social de Rousseau, a união de vontades para realizar obras, instituições, infraestruturas, projetos, enfim, alcançar resultados que o homem sozinho jamais conseguiria. Esta é a verdadeira essência da união dos homens, já no séc. VI a.C Aristóteles dizia que “o homem é um animal social”, focando essa mesma essência, como uma necessidade do ser humano, algo intrínseco à sua condição.

Por norma, somos unidos, trabalhamos em conjunto, interagimos, socializamos, porque percebemos que precisamos do outro para nos conhecermos a nós próprios. Só a interação faz de nós um ser evoluído e viver num mundo onde há progresso, evolução e transformação a cada minuto. Contudo, nas nossas relações há a necessidade de seguir normas de conduta, regras de interação social. São essas regras que nos permitem sociabilizar dentro de um parâmetro regular e nos dão a indicação do que fazer e não fazer. Essas regras não se aplicam só à nossa relação direta uns com os outros, mas analogamente à nossa relação com o Estado - que indiretamente somos todos nós. É nessa segunda dimensão, em que se manifesta com mais veemência a crise social, os desvalores morais e, em certos casos, a total ausência de normas ou, melhor dizendo, o total descrédito das mesmas. Essa ausência de consciência moral reflete-se a todo instante, reflete-se nas 1000 pessoas que pagam para as 3000 que andam por dia num qualquer autocarro em Lisboa, reflete-se na demissão dos cidadãos da participação cívica, quer em associações, quer em órgãos do município, reflete-se no descuido e na forma de tratar os bens públicos e numa outra serie de aspetos e atitudes do nosso quotidiano. O ser humano tornou-se verdadeiramente despreocupado e alienado das dificuldades dos outros, tornou-se um ser egocêntrico com a única vontade de prosseguir os seus fins e realizar os seus objetivos, descomprometido de qualquer consciência social, esqueceu-se que o Estado Providência depende da participação de cada um, na construção do mesmo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Regresso aos mercados

Ao fim de 21 meses Portugal voltou aos mercados. Passámos o primeiro teste, cuja possibilidade surgiu não só da conjuntura positiva dos mercados, mas também, da forma como temos trabalhado no reequilíbrio das contas públicas e demonstrado isso lá fora. Portugal, emitiu 2 mil milhões de euros de dívida (em obrigações do tesouro) com maturidade de 5 anos. O chamado “leilão sindicado”, contou com as instituições financeiras: Deutsche Bank, Barclays, Morgan Stanley e o português Banco Espírito Santo, sendo que ao fim do dia manifestou-se uma procura na ordem dos 12 mil milhões - pelo que consegui apurar nos jornais de hoje. Tal facto, significa que os “mercados confiam e Portugal” e que em principio, não será necessário negociar mais uma nova tranche com a troika - que só cá estava por falta de compradores da dívida portuguesa. Esta vontade de comprar a dívida portuguesa, manifestar-se-á numa melhoria dos ratings, sendo que os juros das instancias financeiras reduzirão e, portanto, o dinheiro será mais barato, ganhando, por isso, Portugal o poder de negociação com a troika sobre o conteúdo das medidas adotadas - pois talvez não seja necessário mais dinheiro. Estamos, de facto, a dar o - tão aguardado - primeiro passo para nos despedirmos do memorando de ajuda externa.