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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O mito da consciência social

Poderia principiar este breve escrito, como muitos outros fazem, pelo surgir da enorme crise económico-financeira em que estamos mergulhados. Tal início seria terrível, pois todos nós estamos fartos das discrepâncias orçamentais, do défice excessivo, das Parcerias Publico Privadas e de outros inúmeros casos e factos que nos repugnam, como a questão do BPN ou do BPP tão bem ilustra. De facto, tudo isto é uma história da carochinha, que me cansa e me tem consumido muito tempo, pelo que estas breves linhas se iniciam com a questão da negação da sociedade que impele sobre o homem em geral e que está a ganhar uma força constante e, por isso, preocupante – chamemos-lhe crise de valores, crise de mentalidades ou, indo ao extremo, amoralidade social.

Societas, do latim significa sociedade, um conjunto de pessoas que partilha preocupações, objetivos, projetos e que trabalha em conjunto para os realizar. Repare-se, que esta é a essência do contrato social de Rousseau, a união de vontades para realizar obras, instituições, infraestruturas, projetos, enfim, alcançar resultados que o homem sozinho jamais conseguiria. Esta é a verdadeira essência da união dos homens, já no séc. VI a.C Aristóteles dizia que “o homem é um animal social”, focando essa mesma essência, como uma necessidade do ser humano, algo intrínseco à sua condição.

Por norma, somos unidos, trabalhamos em conjunto, interagimos, socializamos, porque percebemos que precisamos do outro para nos conhecermos a nós próprios. Só a interação faz de nós um ser evoluído e viver num mundo onde há progresso, evolução e transformação a cada minuto. Contudo, nas nossas relações há a necessidade de seguir normas de conduta, regras de interação social. São essas regras que nos permitem sociabilizar dentro de um parâmetro regular e nos dão a indicação do que fazer e não fazer. Essas regras não se aplicam só à nossa relação direta uns com os outros, mas analogamente à nossa relação com o Estado - que indiretamente somos todos nós. É nessa segunda dimensão, em que se manifesta com mais veemência a crise social, os desvalores morais e, em certos casos, a total ausência de normas ou, melhor dizendo, o total descrédito das mesmas. Essa ausência de consciência moral reflete-se a todo instante, reflete-se nas 1000 pessoas que pagam para as 3000 que andam por dia num qualquer autocarro em Lisboa, reflete-se na demissão dos cidadãos da participação cívica, quer em associações, quer em órgãos do município, reflete-se no descuido e na forma de tratar os bens públicos e numa outra serie de aspetos e atitudes do nosso quotidiano. O ser humano tornou-se verdadeiramente despreocupado e alienado das dificuldades dos outros, tornou-se um ser egocêntrico com a única vontade de prosseguir os seus fins e realizar os seus objetivos, descomprometido de qualquer consciência social, esqueceu-se que o Estado Providência depende da participação de cada um, na construção do mesmo.