Poderia principiar este breve
escrito, como muitos outros fazem, pelo surgir da enorme crise
económico-financeira em que estamos mergulhados. Tal início seria terrível,
pois todos nós estamos fartos das discrepâncias orçamentais, do défice
excessivo, das Parcerias Publico Privadas e de outros inúmeros casos e factos
que nos repugnam, como a questão do BPN ou do BPP tão bem ilustra. De facto,
tudo isto é uma história da carochinha, que me cansa e me tem consumido muito tempo,
pelo que estas breves linhas se iniciam com a questão da negação da sociedade
que impele sobre o homem em geral e que está a ganhar uma força constante e,
por isso, preocupante – chamemos-lhe crise de valores, crise de mentalidades
ou, indo ao extremo, amoralidade social.
Societas, do latim significa sociedade, um conjunto de pessoas que
partilha preocupações, objetivos, projetos e que trabalha em conjunto para os
realizar. Repare-se, que esta é a essência do contrato social de Rousseau, a união de vontades para
realizar obras, instituições, infraestruturas, projetos, enfim, alcançar
resultados que o homem sozinho jamais conseguiria. Esta é a verdadeira essência
da união dos homens, já no séc. VI a.C Aristóteles
dizia que “o homem é um animal social”, focando essa mesma essência, como
uma necessidade do ser humano, algo intrínseco à sua condição.
Por norma, somos unidos,
trabalhamos em conjunto, interagimos, socializamos, porque percebemos que
precisamos do outro para nos conhecermos a nós próprios. Só a interação faz de
nós um ser evoluído e viver num mundo onde há progresso, evolução e
transformação a cada minuto. Contudo, nas nossas relações há a necessidade de
seguir normas de conduta, regras de interação social. São essas regras que nos
permitem sociabilizar dentro de um parâmetro regular e nos dão a indicação do
que fazer e não fazer. Essas regras não se aplicam só à nossa relação direta
uns com os outros, mas analogamente à nossa relação com o Estado - que
indiretamente somos todos nós. É nessa segunda dimensão, em que se manifesta
com mais veemência a crise social, os desvalores morais e, em certos casos, a
total ausência de normas ou, melhor dizendo, o total descrédito das mesmas.
Essa ausência de consciência moral reflete-se a todo instante, reflete-se nas
1000 pessoas que pagam para as 3000 que andam por dia num qualquer autocarro em
Lisboa, reflete-se na demissão dos cidadãos da participação cívica, quer em
associações, quer em órgãos do município, reflete-se no descuido e na forma de
tratar os bens públicos e numa outra serie de aspetos e atitudes do nosso quotidiano.
O ser humano tornou-se verdadeiramente despreocupado e alienado das dificuldades
dos outros, tornou-se um ser egocêntrico com a única vontade de prosseguir os
seus fins e realizar os seus objetivos, descomprometido de qualquer consciência
social, esqueceu-se que o Estado Providência depende da participação de cada
um, na construção do mesmo.