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sábado, 30 de novembro de 2013

Concordamos em Discordar

Aqui há dias, numa pequena tertúlia em minha casa, depois de alguns copos de vinho, dois grandes homens a quem chamo de amigos, discutiam: “De facto este Governo é tudo menos social- democrata. Este Governo é liberal!” dizia um, enquanto o outro, - respondendo de imediato – “Liberal? Liberal? Mas o que sabes tu de liberalismo? Este governo é socialista! Deixou de haver direita em Portugal.”. Não participei na discussão, não de imediato. Deixei-os discutir e proferir as suas radicais e opostas visões. Dou por mim sentado a ouvir a discussão. Era um mero expectador, a dar razão a um qualquer autor que li que dizia que a discussão pública caracteriza-se mais frequentemente pela emoção do que pela razão (creio que é Friedman, mas não me recordo com precisão.). A discussão prolonga-se, fala-se de Reagan, Thatcher, do New Deal, passa-se subitamente para a Reforma do Estado, para o guião da mesma e para as ideologias e partidos políticos. Mudo de opinião. Não estava perante uma discussão de emoções mas sim perante um debate de convicções. Cada um deles, munido da sua e pronto para contra argumentar. Valia a pena. Entrei na discussão. O “homem do partido” estava agora presente contra os independentes de voz forte e decidida. (Deixo os partidos fora da contenda, para quê forçar se os próprios não gostam do debate. É curioso a quantidade de vezes que temos as mesmas ideias e os partidos tornam-nas diferentes ao dividirem-nos. Dividem-nos para subsistirem. São fracos, tendo por isso que dividir para conquistar. São estrategas como Júlio César foi. Mas - hoje - infelizmente não são nada mais que isso.). Divergimos nas posições ou talvez só na intensidade com que as defendemos. As ideologias não são as dos programas partidários, essas estão gastas e desajustadas. Discutimos e percebemos que convergimos em determinados assuntos. Preferimos divergir, testar posições, mas acabamos a concordar com uma Reforma profunda, uma que ninguém fala. Concordamos com a utopia mas mais que isso é impossível. Somos escravos da nossa opinião e contra isso não podemos lutar. Terminamos a discussão e concordamos em discordar em quase tudo, excepto na qualidade do vinho: era de facto mau!

sábado, 9 de novembro de 2013

A Igreja nos dias de hoje

Deixem-me começar por afirmar que não sou ateu, mas também não sou católico nem me considero cristão, apesar de ter sido batizado, ainda que numa idade anterior à que me permite escolher a roupa que visto. Na verdade sinto um pouco de indiferença quanto à Religião, apesar de não admitir que sou ateu porque sinto que quero acreditar em algo, mas não sei bem no quê. Enfim, tudo isto para dizer que sou um crente em construção, tanto quanto ao objeto da crença como quanto à fé na mesma.

Deixando-me de floreados e indo ao que interessa, a Igreja nos últimos tempos têm agido de uma forma que reporto de insólita, atentando contra o conservadorismo clássico que lhe reconhecia. Na verdade, é com agrado que registo a abertura à discussão pública de temas pouco consensuais entre a comunidade católica, através do inquérito enviado pelo Vaticano às conferências episcopais espalhadas pelo mundo. É com igual contentamento que tomei conhecimento da expulsão do bispo de Limburg, conhecido por levar um estilo de vida desconforme com os ensinamentos religiosos. A meu ver, todas estas novidades fazem parte de algo maior, refiro-me, claro, à pretensão de reverter a situação de indiferença com que é olhada a Religião nos dias de hoje.

É inegável que o papel da Igreja tem mudado ao longo dos  tempos e isso está bem presente na encíclica sollicitudo rei socialis de João Paulo II. Contudo, o problema hoje não é a Igreja aumentar a sua presença neste ou naquele domínio do quotidiano, o problema é a Igreja não estar sequer presente e, no caso de estar, a sua presença não ser notada.