Aqui há
dias, numa pequena tertúlia em minha casa, depois de alguns copos de
vinho, dois grandes homens a quem chamo de amigos, discutiam: “De
facto este Governo é tudo menos social- democrata. Este Governo é
liberal!” dizia um, enquanto o outro, - respondendo de imediato –
“Liberal? Liberal? Mas o que sabes tu de liberalismo? Este governo
é socialista! Deixou de haver direita em Portugal.”. Não
participei na discussão, não de imediato. Deixei-os discutir e
proferir as suas radicais e opostas visões. Dou por mim sentado a
ouvir a discussão. Era um mero expectador, a dar razão a um
qualquer autor que li que dizia que a discussão pública
caracteriza-se mais frequentemente pela emoção do que pela razão
(creio que é Friedman, mas não me recordo com precisão.). A
discussão prolonga-se, fala-se de Reagan, Thatcher, do
New Deal, passa-se subitamente para a Reforma do Estado, para
o guião da mesma e para as ideologias e partidos políticos. Mudo de
opinião. Não estava perante uma discussão de emoções mas sim
perante um debate de convicções. Cada um deles, munido da sua e
pronto para contra argumentar. Valia a pena. Entrei na discussão. O
“homem do partido” estava agora presente contra os independentes
de voz forte e decidida. (Deixo os partidos fora da contenda, para
quê forçar se os próprios não gostam do debate. É curioso a
quantidade de vezes que temos as mesmas ideias e os partidos
tornam-nas diferentes ao dividirem-nos. Dividem-nos para subsistirem.
São fracos, tendo por isso que dividir para conquistar. São
estrategas como Júlio César foi. Mas - hoje - infelizmente não são
nada mais que isso.). Divergimos nas posições ou talvez só na
intensidade com que as defendemos. As ideologias não são as dos
programas partidários, essas estão gastas e desajustadas.
Discutimos e percebemos que convergimos em determinados assuntos.
Preferimos divergir, testar posições, mas acabamos a concordar com
uma Reforma profunda, uma que ninguém fala. Concordamos com a utopia
mas mais que isso é impossível. Somos escravos da nossa opinião e
contra isso não podemos lutar. Terminamos a discussão e concordamos
em discordar em quase tudo, excepto na qualidade do vinho: era de
facto mau!
"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." George Orwell
sábado, 30 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
A Igreja nos dias de hoje
Deixem-me
começar por afirmar que não sou ateu, mas também não sou católico
nem me considero cristão, apesar de ter sido batizado, ainda que
numa idade anterior à que me permite escolher a roupa que visto. Na
verdade sinto um pouco de indiferença quanto à Religião, apesar de
não admitir que sou ateu porque sinto que quero acreditar em algo,
mas não sei bem no quê. Enfim, tudo isto para dizer que sou um
crente em construção, tanto quanto ao objeto da crença como quanto
à fé na mesma.
Deixando-me
de floreados e indo ao que interessa, a Igreja nos últimos tempos
têm agido de uma forma que reporto de insólita, atentando contra o
conservadorismo clássico que lhe reconhecia. Na verdade, é com
agrado que registo a abertura à discussão pública de temas pouco
consensuais entre a comunidade católica, através do inquérito
enviado pelo Vaticano às conferências
episcopais
espalhadas pelo mundo. É com igual contentamento que tomei
conhecimento da expulsão do bispo de Limburg, conhecido por levar um
estilo de vida desconforme com os ensinamentos religiosos. A meu ver,
todas estas novidades fazem parte de algo maior, refiro-me, claro, à
pretensão de reverter a situação de indiferença com que é olhada
a Religião nos dias de hoje.
É
inegável que o papel da Igreja tem mudado ao longo dos tempos e
isso está bem presente na encíclica sollicitudo
rei socialis
de João Paulo II. Contudo, o problema hoje não é a Igreja aumentar a
sua presença neste ou naquele domínio do quotidiano, o problema é
a Igreja não estar sequer presente e, no caso de estar, a sua presença não ser notada.
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