Aqui há
dias, numa pequena tertúlia em minha casa, depois de alguns copos de
vinho, dois grandes homens a quem chamo de amigos, discutiam: “De
facto este Governo é tudo menos social- democrata. Este Governo é
liberal!” dizia um, enquanto o outro, - respondendo de imediato –
“Liberal? Liberal? Mas o que sabes tu de liberalismo? Este governo
é socialista! Deixou de haver direita em Portugal.”. Não
participei na discussão, não de imediato. Deixei-os discutir e
proferir as suas radicais e opostas visões. Dou por mim sentado a
ouvir a discussão. Era um mero expectador, a dar razão a um
qualquer autor que li que dizia que a discussão pública
caracteriza-se mais frequentemente pela emoção do que pela razão
(creio que é Friedman, mas não me recordo com precisão.). A
discussão prolonga-se, fala-se de Reagan, Thatcher, do
New Deal, passa-se subitamente para a Reforma do Estado, para
o guião da mesma e para as ideologias e partidos políticos. Mudo de
opinião. Não estava perante uma discussão de emoções mas sim
perante um debate de convicções. Cada um deles, munido da sua e
pronto para contra argumentar. Valia a pena. Entrei na discussão. O
“homem do partido” estava agora presente contra os independentes
de voz forte e decidida. (Deixo os partidos fora da contenda, para
quê forçar se os próprios não gostam do debate. É curioso a
quantidade de vezes que temos as mesmas ideias e os partidos
tornam-nas diferentes ao dividirem-nos. Dividem-nos para subsistirem.
São fracos, tendo por isso que dividir para conquistar. São
estrategas como Júlio César foi. Mas - hoje - infelizmente não são
nada mais que isso.). Divergimos nas posições ou talvez só na
intensidade com que as defendemos. As ideologias não são as dos
programas partidários, essas estão gastas e desajustadas.
Discutimos e percebemos que convergimos em determinados assuntos.
Preferimos divergir, testar posições, mas acabamos a concordar com
uma Reforma profunda, uma que ninguém fala. Concordamos com a utopia
mas mais que isso é impossível. Somos escravos da nossa opinião e
contra isso não podemos lutar. Terminamos a discussão e concordamos
em discordar em quase tudo, excepto na qualidade do vinho: era de
facto mau!