1. Volvidos 40
anos desde o golpe de Estado militar, que trouxe a liberdade para o
coração de todos os portugueses, é tempo de percebermos o que
mudámos e, na verdade, o que o País mudou desde então. Desde o
Sistema político, às Forças Armadas, passando pela Educação,
Saúde, infraestruturas básicas e obras públicas e mesmo alterações
de mentalidade, Portugal mudou muito, mudou tanto, que é difícil
reconhecermos como era viver nessa época, que para muitos - como é
o meu caso - só foi vivida através de livros de História.
2. Desde logo, as
transformações políticas em Portugal foram tremendas, de uma
Assembleia Nacional com 90 deputados e um partido único, passou-se
para um Parlamento com 230 deputados e, claro está, multipartidário.
Implementou-se a democracia e esta, ganhou força e vigor,
tornando-se o próprio poder local numa das grandes conquistas da
Revolução dos Cravos.
3. Com o 25 de
Abril, chegou o fim da Guerra Colonial, pronunciada tanto pelo
cansaço das famílias ao verem os mais novos partirem para África,
como pelo livro do General Spínola, “Portugal e o Futuro”. Certo
é que se acabou com a mentalidade do “antes e depois da tropa”,
os “teatros de guerra” na Guiné, em Angola e Moçambique,
passaram a “missões de paz” no Kosovo, no Mali, no Afeganistão
e na Somália e, por último, os cerca de 200 mil efectivos das
Forças Armadas passaram a cerca de 33 mil.
4. No atinente à
educação, muito mudou para além da tradição da fotografia de
António Salazar nas salas da escola primária. Portugal deixou de
ser o País com 25% de analfabetos, para passar a ser um País onde a
escolaridade obrigatória é o 12.º ano e onde o Orçamento com a
educação é cerca de 4% do PIB, ao invés, dos 1,4% do Estado Novo.
Efectivamente, enquanto no secundário estudavam cerca de 40 mil
alunos, hoje estudam 411 mil.
5. Na área da
saúde, a mudança foi igualmente radical. Passámos a ter um Sistema
Nacional de Saúde invejável por muitos outros países. A esperança
média de vida passou dos 68 para os 79 anos e, hoje temos mais 32
mil médicos que há 40 anos atrás. O número de consultas médicas
aumentou para o dobro e o avanço técnico é hoje um dado adquirido,
o que fez com que nos tornássemos numa sociedade mais saudável onde
o aceso à saúde é “tendencialmente gratuito”.
6. Quanto às
infraestruturas e obras públicas, veja-se por exemplo, o aumento dos
42 km de autoestradas para os cerca de 3100 km hoje existentes, ou
mesmo, das habitações com água canalizada, que em 1974 eram não
mais de 50 % e hoje são quase 100%. Nos tempos que correm, as
condições de vida são sem sobra de dúvida melhores. Desde as
acessibilidades, aos transportes colectivos, às condições de
habitação própria, muito mudou em 40 anos.
7. Por último,
foi a mudança de mentalidades o grande palco de transformações.
Acabou-se com o pátrio poder, onde o homem mandava tanto na mulher
que esta precisava da sua autorização para exercer actos de
comércio e este até a podia matar se a apanhasse a cometer
adultério. Terminaram as profissões exclusivas para homens, como
foram a carreira militar, a magistratura e a diplomacia. Mesmo mais
recentemente e ainda quanto a esta mudança de moral dominante, já é
permitido abortar e duas pessoas do mesmo sexo casarem-se, realidade
completamente impensável há 40 anos atrás.
8. Atendendo a estas
transformações é uma tarefa muito difícil a de reconstruir o
Portugal de 1974. Fruto de um regime autoritário e fechado sobre si
mesmo que ignorou durante muito tempo as mudanças mundiais resultado
da própria globalização, Portugal é hoje nada do que era e, daqui
a 40 anos, será certamente nada do que hoje é.