Sessenta e três anos
depois do Plano Shuman, o que é a Europa? Muito mudou desde a declaração do Ministro dos Negócios
Estrangeiros francês em meados do século XX, que visava a criação da Comunidade
Europeia do Carvão e do Aço. Hoje, ao olharmos para esta declaração, pensamos
no quão erudita e perspicaz foi, por ter conseguido conciliar os ânimos da
época intolerantes a grandes mudanças com a necessidade de um novo rumo para a
Europa. Repare-se que num contexto de pós-guerra, grandes e determinantes transformações
não seriam fáceis de implementar, pelo que, se afirmou o chamado método funcional afirmando-se que a “Europa não se [faria] de uma só vez, nem
numa construção de conjunto”.
De facto, olhamos para o passado e as mesmas palavras que há
mais de sessenta anos faziam sentido, hoje fazem ainda mais. Continua a ser
necessária uma “solidariedade de facto” e sabemos que é indispensável uma
“fusão de interesses” para que a União funcione. Pergunto-me o que daqui a 60
anos pensaremos sobre estes nossos conturbados tempos? Acharemos surreal a
ideia de construir uma União Económica sem uma União Política? É muito provável
que o venhamos a fazer. Mas será que hoje em dia os Estados Europeus estão
preparados para alienar a sua soberania na construção de uma Federação? Outrora
havia elementos que pesavam muito na balança do federalismo, hoje, esses
elementos como que se dissiparam. O primeiro, seria claramente o cristianismo, herança
da Respublica Christiana, coisa
que o homem comum deixou de valorizar. O segundo, seria o elemento geográfico,
contudo, mesmo este deixará de fazer sentido se a Turquia aderir à
União Europeia, como alguns pretendem. Será que existem elementos a favor sequer de um federalismo? O
elemento cultural indica-nos que os povos são individualistas por natureza, com
tradições muito rígidas e próprias que se transformam num obstáculo para a
integração política. O elemento histórico e os exemplos dos Estados Unidos da
América e da Alemanha, levam-nos a pensar em processos revolucionários e não em
construções políticas seculares. Mesmo que existisse uma “solidariedade de
facto” entre os países da União e uma “vontade significativa de integração”,
sou forçado a afirmar que o Estados - leia-se os seus cidadãos - não estão
ainda, na sua maioria, preparados para a alienação total de um valor em que, alguns
com mais de vinte séculos de história, basearam a sua estrutura política: a
soberania.
Apesar da minha convicção realista
e visão bastantes eurocética da
realidade aqui tratada, não é despiciendo recordar a título de finalização um
excerto, quase que poético, de De Gaulle,
na Conferência de 15 de Maio de 1962: ”Em assuntos de grande importância é
muitas vezes agradável sonharmos com a lâmpada mágica de Aladino, a qual basta
friccionar para conferir substância ao irreal. Mas não existe uma fórmula
mágica que nos permita levar a cabo uma tarefa tão difícil como a construção da
Europa Unida. Vamos construir as fundações sobre a realidade; quando tivermos
feito isso, então será altura de nos deixarmos seduzir pelas Mil e Uma Noites”.
Concluindo, para uns fica o sonho,
para outros a realidade, de todo o modo, é algo em que vale a pena pensar.