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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Para onde vais Europa?

Sessenta e três anos depois do Plano Shuman, o que é a Europa? Muito mudou desde a declaração do Ministro dos Negócios Estrangeiros francês em meados do século XX, que visava a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. Hoje, ao olharmos para esta declaração, pensamos no quão erudita e perspicaz foi, por ter conseguido conciliar os ânimos da época intolerantes a grandes mudanças com a necessidade de um novo rumo para a Europa. Repare-se que num contexto de pós-guerra, grandes e determinantes transformações não seriam fáceis de implementar, pelo que, se afirmou o chamado método funcional afirmando-se que a “Europa não se [faria] de uma só vez, nem numa construção de conjunto”.

De facto, olhamos para o passado e as mesmas palavras que há mais de sessenta anos faziam sentido, hoje fazem ainda mais. Continua a ser necessária uma “solidariedade de facto” e sabemos que é indispensável uma “fusão de interesses” para que a União funcione. Pergunto-me o que daqui a 60 anos pensaremos sobre estes nossos conturbados tempos? Acharemos surreal a ideia de construir uma União Económica sem uma União Política? É muito provável que o venhamos a fazer. Mas será que hoje em dia os Estados Europeus estão preparados para alienar a sua soberania na construção de uma Federação? Outrora havia elementos que pesavam muito na balança do federalismo, hoje, esses elementos como que se dissiparam. O primeiro, seria claramente o cristianismo, herança da Respublica Christiana, coisa que o homem comum deixou de valorizar. O segundo, seria o elemento geográfico, contudo, mesmo este deixará de fazer sentido se  a Turquia aderir à União Europeia, como alguns pretendem. Será que existem elementos a favor sequer de um federalismo? O elemento cultural indica-nos que os povos são individualistas por natureza, com tradições muito rígidas e próprias que se transformam num obstáculo para a integração política. O elemento histórico e os exemplos dos Estados Unidos da América e da Alemanha, levam-nos a pensar em processos revolucionários e não em construções políticas seculares. Mesmo que existisse uma “solidariedade de facto” entre os países da União e uma “vontade significativa de integração”, sou forçado a afirmar que o Estados - leia-se os seus cidadãos - não estão ainda, na sua maioria, preparados para a alienação total de um valor em que, alguns com mais de vinte séculos de história, basearam a sua estrutura política: a soberania.
Apesar da minha convicção realista e visão bastantes eurocética da realidade aqui tratada, não é despiciendo recordar a título de finalização um excerto, quase que poético, de De Gaulle, na Conferência de 15 de Maio de 1962: ”Em assuntos de grande importância é muitas vezes agradável sonharmos com a lâmpada mágica de Aladino, a qual basta friccionar para conferir substância ao irreal. Mas não existe uma fórmula mágica que nos permita levar a cabo uma tarefa tão difícil como a construção da Europa Unida. Vamos construir as fundações sobre a realidade; quando tivermos feito isso, então será altura de nos deixarmos seduzir pelas Mil e Uma Noites”. Concluindo, para uns fica o sonho, para outros a realidade, de todo o modo, é algo em que vale a pena pensar.