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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Uma crise de gerações?

Com a crise internacional de 2008 chegou a crise das dívidas soberanas que se alastrou por toda a Europa. Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Chipre, foram as primeiras peças do dominó a cair. No meio das dificuldades financeiras das diversas economias Europeias e da consequente falta de credibilidade geradora das dificuldades de acesso ao crédito, chegaram os diversos programas de ajuda externa. Conditio sine qua non destes programas, eram as políticas rígidas de contenção de custos, de redução de despesa, de cortes na Administração e muitas medidas de aquisição de receita como são exemplo as nossas conhecidas privatizações. A esta fase da política Portuguesa, a que uns chamam de “Austeridade” e outros apelidam de “Inevitabilidade”, estão associadas grandes mudanças na estrutura socioeconómica da população portuguesa. Apesar de mudanças negativas, como o aumento da taxa de desemprego até aos 17,4% (e até aos 40% no desemprego jovem), a crise trouxe também mudanças positivas, como p.e o aumento da taxa de poupança das famílias que subiu dos cerca de 6% em 2008 para os 10.6% em 2012.
Desde 2011 e com o agravar da crise, os problemas sociais e dificuldades económicas têm vindo a aumentar. As gerações dos tempos mais recentes não tiveram as mesmas oportunidades que as gerações anteriores. A oportunidade de estudar, de obter emprego, de constituir família e de deter habitação não são as mesmas que existiam há 20 anos. Essa diferença, ou melhor, a construção dessa diferença, foi causada por diversos fatores, como : i) políticas públicas deficitárias e despesistas; ii) uma classe política maioritariamente incompetente; iii) e um desinteresse generalizado da população na participação cívica. Todos estes fatores - e outros poderiam aqui ser apontados – constituíram a falta de solidariedade intergeracional, que consumou o Portugal dos dias de hoje.
Posto isto, haveriam dois caminhos possíveis para esta geração “pós-crise” seguir. Um primeiro, seria o de enveredar pela discordância com as anteriores gerações que colocaram o país no estado em que hoje este se encontra. Um segundo, seria o de pôr de lado a tristeza e a magoa e seguir em frente fazendo parte da solução para sair desta crise, evitando uma querela entre gerações. Parece-me que este último, para além de fazer mais sentido, é o que esta a ser seguido pelos jovens de hoje. São manifestações desse caminho, a força e empenho crescentes com que os jovens encaram o ensino superior, a constante criação de associações compostas por jovens com objetivos sociais e mesmo a participação dos mais novos na cidadania e na política ativa. Cabe reter que apesar deste caminho de revitalização e de mudança, os jovens não se esquecerão do Portugal que herdaram e, recordado uma frase de Hollande, esta "geração do pós-crise vai ajustar contas com os governantes de hoje".