Os mais
velhos sempre me disseram que há coisas que só percebemos quando
crescemos e que há coisas que só sentimos quando entendemos o
significado de tudo isso. Tinham razão. Hoje, volvidos três anos da
minha saída para a capital do país para estudar, dou um valor que
nunca pensei ser possível a uma coisa que sempre pensei ser
adquirida. Falo-vos da minha terra, essa cidade florida no centro do
país que dá por o nome de Abrantes.
Foi com a
saída da minha terra para estudar Direito e com o passar dos anos
que vivi numa cidade citadina que jamais adormece, que o meu carinho
pela cidade onde nasci foi crescendo. Sei que cresceu, não só pela
nostalgia que sinto quando estou longe, mas pelo calor apaixonado que
testemunho quando estou perto. Hoje afirmo que há poucas coisas que
me saibam tão bem como voltar a Abrantes depois de duas ou três
semanas longe deste meu berço.
Eu faço
parte de uma Abrantes que obteve a sua primeira carta de foral em
1179, faço parte de uma Abrantes que em 1385 fora o ponto de
encontro das tropas Portuguesas para a batalha de Aljubarrota, faço
inclusive parte de uma Abrantes que em 1807 fora ocupada pelas tropas
das invasões francesas. Faço também parte de uma Abrantes mais
recente, que só em 1907 passou a ser cidade e que deu o nome de um
médico notável a uma escola: a escola Dr. Manuel Fernandes onde
estudei até ao 12.º ano. Faço parte de uma cidade com um
património histórico rico, como prova o seu centro histórico, a
igreja de São Vivente e o próprio convento de São Domingos. Faço
parte de uma cidade farta também em tradições, oportunidades e
muitas histórias.
É por
tudo isto que gosto de voltar a Abrantes, pois quando o faço, vejo a
terra em que os meus pais decidiram viver, vejo a terra onde cresci e
aprendi a ser quem sou e, acima de tudo, vejo a terra a que um dia
quero voltar de forma definitiva. Acabo assim, com a graça de sentir
o que sinto por um lugar, com a incerteza do tempo, mas com a certeza
de voltar.
Crónica publicada no Jornal Nova Aliança (14-07-2014)